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Publicado: 03/02/2010 às 22:03, autor Professor Mesquita
      

Doping: Desinteresse e castigo


Correio Braziliense - Esporte/ DF - Doping -

Luiz Roberto Magalhães

Médico da Confederação Brasileira de Tênis e presidente da Comissão Nacional de Controle de Dopagem alertam que os atletas pouco se preocupam com a prevenção ao uso de drogas proibidas

O recente caso do tenista Marcelo Melo - consumiu o analgésico Neosaldina e foi apanhado no exame antidoping, pois o medicamento continha substância isometepteno, proibida para atletas - acendeu um debate no universo esportivo nacional.

Melo, suspenso por dois meses das competições, afirmou que não sabia que a Neosaldina poderia lhe causar tantos problemas. Ele não tinha o hábito de checar o site da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) que, no dia 28 de maio, anunciou: "Atenção tenistas: Neosaldina é proibida". O medicamento havia sido incluído, equivocadamente, na lista dos remédios liberados pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Mas, em maio, as confederações foram avisadas sobre o erro e fizeram a correção.

O episódio de Marcelo Melo - que ocupava a 25ª posição no ranking mundial de duplas - é mais um na história do esporte brasileiro em que atletas alegam que não sabiam que a droga consumida continha substâncias proibidas.

A jogadora da Seleção Brasileira de vôlei, Jaqueline, acabou cortada do Pan do Rio porque foi detectada em seu organismo a substância sibutramina. Em sua defesa, ela declarou que havia ingerido um chá verde para reduzir celulite. O Correio tentou ouvir Jaqueline, mas ela está na Itália, aguardando a sentença do julgamento de seu caso.

A justificativa da jogadora de vôlei assemelha-se à que a saltadora Maurren Maggi, - campeã do Pan do Rio -, apresentou em 2003, quando um exame antidoping acusou a presença da substância clostebol. Aos prantos, Maggi alegou que tinha usado o creme cicatrizante Novaderm após uma sessão de depilação. A reportagem tentou conversar com Maurren Maggi, mas a assessoria da atleta respondeu que "não poderia ajudar sobre esta pauta".

Casos como esses deixam uma pergunta no ar: nossos esportistas se preocupam devidamente com a possibilidade de serem apanhados em exames antidoping? Rogério Teixeira da Silva, coordenador do Comitê Médico da CBT, disse que os atletas, bem como os dirigentes, só se preocupam com o assunto depois que os dopings aparecem. "Ninguém procura os departamentos médicos para se informar sobre o que podem ou não consumir, lamentou.

Médico banido

No início da semana, um outro caso controverso envolvendo a Neosaldina teve um desfecho inusitado. O jogador Ricardo Lopes, do Paulista (SP), que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro, testou positivo para a substância isometepten. O jogador alegou que ingeriu Neosaldina por orientação do médico do clube, Carlos Eduardo Lima Damasceno. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) inocentou o jogador e baniu o médico do futebol. Carlos Eduardo defendeu-se, alegando que a Neosaldina era considerada lícita para o uso de atletas pela Comissão Nacional de Controle de Dopagem, ligada à CBF. De fato, no site da entidade a Neosaldina continua aparecendo na lista dos medicamentos liberados.

O presidente da Comissão Nacional de Controle de Dopagem, Tanus Jorge Nagem, explica: "Essa lista (da CBF) é atualizada apenas uma vez por ano. Mas a Comissão colocou no site da CBF um aviso, no dia 19 de maio, informado sobre a proibição do medicamento. E um outro aviso foi enviado às federações no dia 29 de maio", declarou Tanus Nagem. Para o médico, "além do despreparo dos atletas, existe a desinformação dos clubes." Há 10 anos à frente da Comissão Nacional de Controle de Dopagem, apenas um clube de futebol brasileiro, o Atlético-PR, convidou Tanus Nagem para dar palestras sobre doping.


Natação passa por clínicas
Primeira brasileira a conquistar uma medalha de ouro na natação em Jogos Pan-Americanos (ganhou dois ouros, uma prata e um bronze), a brasiliense Rebeca Gusmão, que recentemente teve seu nome envolvido em uma denúncia de doping, ainda não confirmada, conta que os atletas da natação são amplamente informados sobre a prevenção ao doping. "Temos uma médica à disposição, e a gente participa de clínicas sobre doping", afirmou.

"Sempre que eu vou tomar qualquer medicamento novo ou mesmo um suplemento alimentar eu ligo para a médica da confederação e me informo. Acho que na natação ninguém pode dizer que não está bem informado e os atletas têm que se responsabilizar por seus atos. Por isso, não confio em ninguém nem para pegar minha água que não seja minha mãe, meu pai, meu marido ou meu técnico", ressaltou Rebeca.

Fora das Olimpíadas

Na última quinta-feira, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, anunciou uma medida extrema sobre a questão: os atletas que receberem mais de seis meses de suspensão não participarão da olimpíada seguinte. A medida vai vigorar só depois dos Jogos de Pequim. Mas, a partir do ciclo para os Jogos de Londres, em 2012, Rogge ressaltou que os atletas reincidentes serão banidos das competições olímpicas.

Diante disso, o tenista Marcelo Melo ficará alerta: "Meu erro foi não ter consultado a ITF (Federação Internacional de Tênis). A partir de agora, qualquer coisa que eu for tomar vou fazer isso: consultar a ITF ou procurar o departamento médico do torneio, para me informar", declarou o jogador, que aprendeu a lição da pior forma possível




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