Distúrbio pode ocorrer nas atividades desportivas intensas
Marcelo Luiz de Souza
O suporte de peso nos calcanhares durante a marcha e corrida pode acarretar distúrbios músculo esqueléticos consideráveis, que podem comprometer a performance do atleta durante o treinamento e na própria partida.
O calcanhar faz parte da articulação subtalar, sendo uma freqüente fonte de dor, especialmente em atletas ou pessoas com atividade desportiva intensa. Uma das causas de dor no calcanhar é a fáscia plantar. A fáscia plantar é uma aponeurose fibrosa com várias camadas, que se origina no processo medial da tuberosidade do calcâneo e se insere nas articulações metatarsofalangianas (sola do pé).
Com a atividade intensa e repetitiva, surgem microrrupturas da fáscia e algumas se afastam da inserção fascial. Surge, assim, a chamada fasciíte plantar, expressão abrangente, quase sempre utilizada para descrever uma dor no arco proximal e no calcanhar. Seu diagnóstico é clínico, e podemos observar também em radiografia um esporão de calcâneo (calcificação no calcanhar). Acomete indivíduos adultos de ambos os sexos, geralmente com mais de 40 anos e em aproximadamente 20% dos casos e bilateral.
Mecanismos de lesão
Vários estudos apontam para os distúrbios anatômicos e biomecânicos como possíveis causas da fasciíte plantar. Destacamos entre os quais, a diferença de comprimentos dos membros inferiores, a pronação excessiva da articulação subtalar (tálus e calcâneo), a falta de flexibilidade do arco longitudinal (embaixo do pé) e a rigidez do complexo gastrocnêmio-sóleo (músculos da panturrilha). O uso de calçados sem suporte suficiente para o arco do pé e o tamanho aumentado do passo durante a corrida são, também, causas possíveis da fasciíte plantar.
A dor eventualmente desloca-se para o centro da fáscia plantar. Ela é especialmente problemática ao se levantar pela manhã ou ao descarregar o peso após um longo período na posição sentada, entretanto, a dor regride após alguns passos e aumenta na dorsiflexão (quando os dedos se dirigem para cima) forçada dos dedos e do antepé.
Considerações para o tratamento
Na fasciíte plantar o importante, além do tratamento convencional que será utilizado, é o “ajustamento” biomecânico da lesão. Neste sentido, as órteses (dispositivos para controlar a deformidade dos pés) são bastante úteis na resolução deste problema. Órteses flexíveis com exercícios, podem reduzir de forma significativa o nível de dor desses pacientes. Estas devem ser utilizadas ininterruptamente, especialmente ao levantar pela manhã. Uma alternativa é a utilização da calcanheira ou a palmilha de silicone, facilmente encontradas no mercado e que se ajustam muito bem aos objetivos propostos. Caso este tipo de órtese não seja eficaz, faz-se uma termomoldável a partir de molde neutro do pé.
Uma outra incidência sobre o tratamento, é a correção da discrepância entre os membros inferiores. A fasciíte plantar pode ser observada mais freqüentemente nas pernas mais curtas, e sendo assim, o uso de palmilhas compensatórias é um importante instrumento na correção do problema.
Um outro aspecto que deve ser observado é a escolha do calçado. O pé pronado (pisada pra dentro) precisa de estabilidade e firmeza para reduzir o movimento excessivo. O calçado ideal para o pé pronado deve ser menos flexível e oferecer bom controle do retropé (calcanhar). Já o pé supinado (pisada pra fora) é em geral muito rígido, prefira então os calçados com mais amortecimento e mais flexível.
Após o ajustamento biomecânico da lesão, utilizaremos recursos da eletrotermofoterapia. Assim, o ultra-som pulsátil (micromassagem celular ) e um recurso importante, em combinação com crioterapia (gelo) na fase aguda da lesão. Reduzem-se as necessidades metabólicas na área em vasoconstricção periférica, importante para diminuição do quadro álgico (dor).
O “tens”convencional (pequenos “choques” que provocam analgesia no local) nesta fase pode ser utilizado, bem como os “aines”(antiinflamatórios não-esteróides) necessários para o controle da inflamação, diminuindo a síntese das prostaglandinas (substâncias presentes no processo inflamatório). Os alongamentos devem ser utilizados, tanto da fáscia plantar como do tendão de Aquiles. Exercícios que aumentam a dorsiflexão do hálux (dedão do pé) podem ser utilizados também.
Após o período inflamatório poderemos, ainda, utilizar o ultra-som (contínuo), agora para aumentar a chegada de nutrientes ao tecido lesionado, dando prosseguimento à recuperação da lesão. E, fundamentalmente, os exercícios de mobilização e manipulação do calcanhar para aumentar mobilidade, associados a exercícios de alongamentos do arco plantar e do tendão de Aquiles, exercícios de fortalecimento para a panturrilha e anterior da perna, bem como os artelhos (dedos).
Outra medida a ser adotada são os exercícios de propriocepção (recuperação funcional), onde estímulos sensoriais são enviados ao cérebro, retornando em alívio da dor e recuperação dos movimentos. Neste caso, se aplicam os exercícios de equilíbrio em prancha, skate, pedalinho, giroplano etc.
Não se deve parar com o treinamento, entretanto, a modificação da atividade é necessária. Trabalho contínuo e intervalado em bicicleta ergométrica, evitando o impacto sobre o calcanhar, além de exercícios de fortalecimento muscular (grandes e pequenos grupos musculares) devem ser utilizados. Tão logo possamos reiniciar com a corrida de preferências para corrida na grama, lembrando sempre que a calcanheira deverá ser utilizada também.
Devemos salientar que uma avaliação é importante. Procure sempre orientação profissional para que este possa diferenciar as lesões e indicar tratamento preciso. O diagnóstico diferencial entre fasciíte plantar e tendinite do flexor longo do hálux deve ser realizado com o teste de tensão tecidual. A flexão resistida dos dedos (quando estes se abaixam) é dolorosa com o envolvimento do tendão do flexor longo do hálux.
Bibliografia
CAILLIET, Rene. Doenças dos Tecidos Moles.3ª edição,Porto Alegre,Artmed, 2000.
PRENTICE, W. E., VOIGHT, M.L. Técnicas de Reabilitação Músculo esquelética. Porto Alegre, Artmed, 2003