Sem curso específico, profissão ainda depende de experiência dos treinadores
Guilherme Costa
Não há um curso específico, um sistema de trabalho pré-determinado ou estudos sobre a função. O pré-requisito fundamental para a formação de um preparador de goleiros no Brasil, a despeito de toda a evolução tecnológica no futebol, ainda é o conhecimento empírico. O indivíduo que quiser treinar goleiros precisa ter no currículo, antes de qualquer coisa, um período como goleiro.
"Isso é fundamental para podermos analisar o que se passar na cabeça do goleiro durante os jogos e treinamentos. Só um cara que já foi goleiro entende as dificuldades de uma defesa, de uma saída de gol ou de uma bola alta. É essa vivência que molda os treinamentos", confessou Carlos Pracidelli, atual preparador do São Caetano e treinador dos candidatos à camisa 1 da seleção brasileira na Copa de 2002.
O empirismo da preparação de goleiros, contudo, não é mais soberano. Atualmente, ele é acompanhado de um trabalho específico para o desenvolvimento físico, focado sobretudo na potência e na explosão muscular. Além disso, há o acompanhamento fisiológico das reações do atleta, o que segue a tendência dos jogadores de linha.
"O condicionamento físico é diferente de um atleta de linha, que precisa aprimorar mais a parte aeróbia. O goleiro trabalha outras valências como explosão, agilidade e reflexo. É importante ter tudo isso muito bem treinado. Por isso, o trabalho com os goleiros é bastante individualizado", analisou Pracidelli.
Os goleiros têm muita exigência de sua velocidade máxima de trabalho durante partidas de futebol. "O que acontece é que um jogo não transcorre inteiro em um limite de potência do atleta. Na verdade, ele tem intervalos de gasto intenso de energia, como em alguns piques e momentos de tomada rápida de decisão", ponderou o fisiologista Renato Lotufo, que trabalha no Corinthians.
Com uma necessidade de trabalho diferente dos atletas de linha, os goleiros ainda têm um trabalho focado na evolução de fundamentos (e na correção de outros). Segundo Pracidelli, o papel do preparador é fundamental nesse ponto: "Cabe a nós identificar as qualidades de cada um e aprimorarmos. Mas também precisamos descobrir quais são os pontos em que uma evolução é necessária".
Como exemplo de preparação individual, Pracidelli citou um ex-pupilo que teve no São Caetano. "O Sílvio Luiz (atualmente no Corinthians) tem uma força muito grande em lançamentos com a mão. Por isso, sempre incentivamos o desenvolvimento disso. Mas não pudemos esquecer de corrigir outras deficiências dele", reconheceu.
Ao contrário do técnico e dos preparadores físicos, que montam planejamentos coletivos para um time, o treinador de goleiros desenvolve um trabalho específico e voltado para as características de cada um de seus atletas.
Apesar disso, Pracidelli não acredita na possibilidade de os preparadores de goleiros passarem a ser personal trainers em vez de trabalharem com os clubes: "Não vejo muita chance de isso acontecer, principalmente no Brasil. Você precisa acompanhar o dia-a-dia de cada atleta para saber exatamente o que acontece".
A atuação dos preparadores de goleiros nas equipes determina até suas escalações. "Eu sempre sou procurado para conversar com o técnico sobre a situação de cada um dos jogadores que trabalham comigo. É claro que a decisão final é dele, mas eu procuro passar um pouco do que acontece nos treinamentos", finalizou Pracidelli
FONTE: CIDADEDO FUTEBOL