É possível dissociar a parte emocional da evolução física dos atletas?
Guilherme Costa
Dentro e fora de campo, o futebol passou por muitas mudanças durante os últimos anos. O jogo ficou mais veloz e mais dinâmico, e isso passa por uma mudança na preparação dos atletas. Mas será que essa evolução pode ser explicada apenas pela evolução do condicionamento físico ou das ciências auxiliares?
“No futebol o atleta vive centenas de emoções e isso não pode ser descartado pelos profissionais. Ele vive a felicidade do gol, a decepção de errar um passe ou de uma falha mais grave. A torcida influi no comportamento de alguns jogadores. Mesmo nos treinos de velocidade é fundamental conciliar os aspectos psicológicos”, diz o preparador físico José Rubens D’Elia.
Um exemplo do quanto é impossível dissociar corpo e mente é que os níveis de estresse dos jogadores influenciam diretamente os resultados atléticos ou a velocidade que eles atingem durante as partidas.
“Fazemos testes com os jogadores 24 horas antes das partidas para medir os níveis de creatina e depois do jogo novamente. O normal é que 90% dessas enzimas estejam concentradas nos músculos, mas o estresse faz com que elas se dissipem, e quando isso acontece o risco de lesões é maior”, lembra Renato Lotufo, fisiologista do Corinthians.
A percepção de complexidade dos atletas é uma das etapas de uma mudança no processo de treinamento. Além disso, a tendência é uma reformulação no perfil das pessoas envolvidas com as comissões técnicas para que exista uma valorização ainda maior da parte humana do esporte.
“O preparador não pode ser apenas um preparador, mas um psicofísico. Para isso, é fundamental entender o que é o psicológico, que os problemas externos também influem no rendimento. O fisiologista também tem de ser um biofisiologista e buscar entender todo o corpo”, projeta D’Elia.
Para que o preparador físico tenha uma importância maior na preparação global dos atletas, contudo, seu trabalho precisa romper o paradigma militarista que fundamenta o condicionamento de equipes esportivas atualmente e criar um cenário mais adaptado à realidade dos atletas.
“Sempre odiei o modelo das aulas de educação física nas escolas por causa desse conceito militarista. Mesmo as academias estão tentando acabar com esse modelo dos ratos na esteira, que só repetem movimentos pré-determinados. Isso precisa mudar no esporte de alto rendimento”, planeja D’Elia.