A discussão a seguir foge um pouco do ideal que seria o desenvolvimento de um texto. Na verdade, trata-se de um ponto de vista de profissionais da área da educação física, especificamente do treinamento desportivo. Não usaremos referenciais bibliográficos, nem citações, apenas colocaremos nossas opiniões e aguardamos com este texto a conscientização de pessoas do meio que trabalham erradamente com crianças no esporte e que cada vez mais profissionais capacitados tomem a frente de trabalhos que estejam relacionados ao treinamento na infância e adolescência.
Não precisamos ir muito longe. Em nossa própria cidade, existem projetos que lidam com crianças, equipes que representam a cidade em qualquer modalidade que seja. Para estas crianças, é determinado que pessoas se responsabilizem por educá-las fisicamente através dos ensinamentos e práticas esportivas.
O problema está em quem são estas pessoas. A coordenação de esportes da cidade supervisiona os profissionais responsáveis por ministrar estas atividades? Os professores, muitas vezes provisionados ou estagiários, são especialistas em crescimento e desenvolvimento infantil? A coordenação oferece capacitações a estes responsáveis para que eles orientem as crianças ao que eles realmente devem fazer?
São questões que na maioria das vezes não paramos pra pensar, até porque achamos bonita a atitude de pessoas que se dispõem a tirar crianças da ociosidade e levá-las à pratica esportiva. Mas esta atitude será mais eficaz e realmente auxiliará no crescimento e desenvolvimento da criança se ela for supervisionada ou assessorada por algum especialista.
O ponto de discussão está na complexidade do trabalho com a criança. Em saber por qual fase ela está passando, de acordo com sua idade, se determinados tipos de exercícios e cargas estarão ajudando ou prejudicando seu crescimento.
Será que a criança tem relação com a busca de resultados, ganhar ou perder competições, almejar boas condições físicas, ou tudo isso acaba queimando etapas da sua evolução como pessoa? O esporte pode, sim, disciplinar as pessoas, ocupar seu tempo, proporcionar melhor qualidade de vida, porém é necessário que os profissionais a frente destas crianças saibam realmente o que é importante trabalhar com elas e em que momento.
Hoje encontramos em grande escala escolas de iniciação esportiva, nas quais crianças com até 13 anos aproximadamente, variando o limite de idade de escola para escola, recebem atividades relacionadas a alguma modalidade e onde a criança na maioria das vezes entra com o intuito de se tornar um atleta de ponta, até pela alta influência da mídia.
Mas no momento, apenas é um sonho e este não pode ser encarado com muita seriedade em determinada fase da vida. Às vezes encontramos o sério problema da cobrança dos pais, que muitas vezes acham que o filho é alto e por isso deve se tornar um jogador de basquete, e reforça isso a cada sessão de treinamento. Ou, às vezes, o filho tem certa habilidade no futebol e o pai já prevê daqui a mais de dez anos que o filho seja um jogador profissional renomado e comece a influenciar negativamente no seu crescimento cobrando nos treinos, querendo que o mesmo treine em excesso, etc.
A família é importantíssima em toda a vida da criança, porém ela pode ser negativa se os pais impedirem seus filhos de ser criança. Muitas vezes a criança vai praticar determinada modalidade e fica com medo da atitude que o pai tomará se a mesma cometer um erro, etc. Com isso, a criança perde o gosto pela pratica esportiva, sendo que a família foi fundamental para este acontecimento.
Além do ponto família e escolas de iniciação esportiva, discutiremos agora um dos pontos mais perigosos no que se refere à questão criança x esporte: as categorias de base. O que nos deixa um pouco aliviados é saber que no futebol as grandes equipes do Brasil e outras não muito conhecidas também realizam o trabalho correto respeitando a formação da criança e do adolescente.
Mas a maioria ainda trabalha da maneira errada. O que voga muito neste âmbito é a relação de a criança estar numa equipe e ao disputar uma competição necessitar de resultados, fazendo com que na maioria das vezes ocorra uma cobrança excessiva do treinador com a criança, por achar que quando entram na área de disputa, a única coisa que importa é a vitória.
Isso ocorre muito, e com resultados negativos, acaba se transferindo para altas cargas psicológicas e físicas no processo de treinamento, tratando as crianças como mini-atletas, ou mini-máquinas de dar resultado. O despreparo dos profissionais responsáveis por esta parte é o maior responsável por tudo isso.
Ex-atletas, que apenas vivenciaram o esporte, sem base científica nenhuma, nem formação específica, tomam o lugar de pessoas capacitadas para trabalhar com o esporte infantil, e acham que apenas o empirismo ajudará no processo de formação do atleta. Mudam muitas vezes as formas de trabalhar com as crianças, sendo que na verdade o trabalho ideal a se fazer é deixá-las ser criança, planejando atividades que não influenciem negativamente em seu crescimento, e nem exigindo mais do que elas podem oferecer, pois crianças são saudáveis e até suportam certas cargas excessivas.
Futuramente o resultado negativo pode aparecer, e aí não sabemos por que um garoto de tanto potencial não se tornou o craque que se esperava, ou uma criança de tanta força nos treinos não se tornou um lutador profissional.
Encontramos hoje crianças lesionadas por sobrecarga. Além de absurdo, isso reforça que cada vez mais as pessoas estão trabalhando mini-atletas e não crianças.
A desvalorização do profissional de educação física não está somente nas pessoas que os desvalorizam – temos também nossa margem de culpa por não estar sempre nos atualizando, estudando mais a cada dia, nos aperfeiçoando, capacitando.
A sociedade de um modo geral deve se preocupar com o futuro do país, em colocar bons profissionais para exercer bons e corretos trabalhos, deixando um pouco de lado a economia financeira quando falamos em salário para estes, pois o baixo investimento feito na base pode ser a prevenção para um futuro desastre com os esportistas mirins do nosso país.