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Publicado: 14/03/2010 às 19:05, autor Professor Mesquita
      

Especial: tecnologia no futebol

Oficialmente, suporte técnico à arbitragem está vetado pela Fifa; confira análise dos nossos colunistas e nos artigos específicos
Equipe Universidade do Futebol

“Por que tirar a responsabilidade do árbitro e entregar a outra pessoa?”. O questionamento de Joseph Blatter, presidente da Fifa, exposto em uma carta oficial divulgada na última sexta-feira, esteve repleto de sentidos. Mas o principal deles soou como um baque aos defensores da inserção de aparatos tecnológicos para auxiliar o trio de arbitragem durante os jogos oficiais.

O mandatário da entidade que organiza o futebol no planeta explicou os motivos pelos quais não se liberará a condição externa para analisar lances duvidosos. Durante uma reunião em Zurique, na semana passada, a Fifa descartou qualquer possibilidade do estudo da tecnologia ou mesmo da utilização do vídeo para ajudar no caso de dúvidas se a bola ultrapassou ou não a linha de gol.

Dois sistemas foram estudados pela International Football Association Board, órgão criado no final do século XIX e hoje composto por representantes da Fifa e dos países britânicos Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia – é ele quem determina as regras do jogo, propõe e aprova mudanças.

Tanto o “Cairos”, que utiliza um chip dentro da bola, quanto o “Olho de Falcão”, procedimento despendido nos jogos de tênis, foram reprovados. Blatter se apóia no romantismo histórico da modalidade e na “igualdade social” para defender o veto.

“Se observar um grupo de jovens que jogam em um pequeno povoado do planeta, eles estarão jogando com as mesmas regras que se aplicam aos jogadores profissionais que são vistos pela televisão”, expressou o suíço, argumentando que, mesmo depois da repetição em câmera lenta, ainda existirão dúvidas sobre a decisão a se tomar em algumas ocasiões de campo.

Fora isso, a Fifa considera que os custos para a implantação das tecnologias são muito elevados. Na carta, Blatter reforçou ainda a ideia de que o objetivo principal da instituição que dirige é aumentar a qualidade da arbitragem. Os testes, como a implantação do quarto árbitro, continuarão sendo realizados.

“O futebol é dinâmico e não pode ser paralisado para analisar cada situação. Parar o jogo a cada dois minutos acabaria com o dinamismo do esporte”, finalizou.

Advogado interno da EPFL, a Associação das Ligas Profissionais de Futebol da Europa, sediada em Nyon, na Suíça, André Megale compreende a justificativa da Fifa. E volta os olhos à própria trajetória da federação.

“Historicamente, essa explicação faz todo o sentido. Como sabemos, essa versão moderna do futebol surgiu na Inglaterra a partir de uma dissidência do rúgbi. Em finais do século XIX, ambos os esportes tinham o mesmo apelo entre os ingleses, eram como irmãos gêmeos. Porém, ao longo dos anos, o futebol tornou-se um fenômeno mundial, enquanto o rúgbi permaneceu como um esporte bem menos popular”, citou o também colunista da Universidade do Futebol, em seu texto mais recente.

Na avaliação dele, talvez essa discrepância tenha ocorrido por conta da simplicidade do futebol, em oposição à aparente complexidade do rúgbi. “Mas essa é apenas uma suposição, ninguém pode afirmar categoricamente que a manutenção da simplicidade tenha sido o segredo do sucesso”, completou.

“Tanto por conta da justificativa dada pela Fifa e pelo Ifab, como por uma outra justificativa de minha convicção: mesmo com a introdução da tecnologia (que certamente não seria acessível ou viável para a grande maioria dos jogos), as polêmicas em torno dos lances controvertidos, e a discricionariedade do árbitro, não deixariam de existir”, previu Megale.

A Federação Internacional de Jogadores de Futebol Profissionais (FIFPro) também entrou na discussão. Ela criticou a decisão, citando que mais de 90% dos capitães das equipes europeias se mostraram a favor da ideia.

Secretário do Comitê Técnico do grupo, o holandês Tijs Tummers, referendado por pesquisa realizada recentemente pela federação, declarou que tal ação executiva é incompreensível e muito frustrante.

De acordo com Tummers, a utilização extensa de imagens de vídeo traz algumas dificuldades, “mas a tecnologia na linha do gol é simples, não interrompe o jogo e permite conservar o lado humano do futebol”.

Entre os integrantes da entidade que avalia as regras do futebol, as federações de Inglaterra e Escócia estavam a favor do uso da tecnologia na linha do gol, enquanto as de Irlanda do Norte, País de Gales e a Fifa votaram contra a proposta, apontou a FIFPro.

“Essa decisão da International Board é um insulto a todos os profissionais do futebol”, finalizou o secretário.

Outro colunista e colaborador da Universidade do Futebol, Eduardo Fantato também discorreu sobre a pauta. Bacharel em Educação Física (Treinamento Esportivo) pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mestre em Ciências do Esporte pela Unicamp, Sócio e Diretor Esportivo da ScoutOnline, Fantato atuou como observador de jogos no futebol com clubes brasileiros e veículos de comunicação.

Estudioso do uso de tecnologia para melhoria dos processos de treino e jogo no futebol, e em pesquisas para melhoria do processo pedagógico, ele questionou: por que a tecnologia encontra as portas fechadas no mundo do futebol?

Fantato lembrou que nos Jogos Olímpicos de Inverno, realizados em Vancouver, no mês passado, vídeos foram utilizados para validar alguns gols nos jogos de hóquei. O resultado disso foi uma transparência maior, em detrimento de alguma injustiça por falha humana, sem causar grandes males àquela modalidade.

Para estender e aprofundar a temática, elencando as adversidades para se implementar tais ferramentas, em se considerando a diferença financeira das grandes ligas para ligas menores ou mesmo divisões inferiores, o professor convoca a comunidade ao debate. E nós também!




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