ano era 1999, o cenário era a Copa Nike, torneio sub-15 disputado em Manchester. O time sub-15 do Barcelona faturava o título da competição ao bater o Rosário Central. Pep Guardiola, que na época era volante dos profissionais, estava na arquibancada para entregar o troféu aos campeões. Ele já havia sido alertado pelo irmão, Pere Guardiola, que era representante da Nike na Espanha, sobre a existência de um garoto diferente, sobre o qual choviam elogios nas canteras do Barcelona. O nome dele? Andrés Iniesta.
No mesmo ano, o jovem Xavi era campeão mundial sub-20 com a seleção espanhola e começava a se firmar como companheiro do próprio Guardiola no time então comandado por Louis van Gaal. Certo dia, em um treino, Pep lançou um aviso ao hoje camisa 6 blaugrana: “você vai me substituir, mas o Iniesta vai substituir nós dois”.
Quis o destino que o próprio Pep arrumasse lugar para os dois no meio-campo do Barça e desistisse de ver a própria profecia concretizada. E que a dobradinha fosse mantida na seleção, conquistando a Euro 2008 e a Copa do Mundo de 2010, com Iniesta marcando o gol do título, assim como na supracitada Copa Nike.
Timidez e sofrimento no início
Iniesta começou a carreira aos 10 anos no Albacete, clube que leva o nome da província onde se localiza Fuentealbilla, minúscula cidade com população de cerca de 2 mil habitantes onde ele nasceu e foi criado. Reza a lenda que, já aos oito anos de idade, fez fama no município por disputar – e desequilibrar – peladas com os amigos do pai, que, incrédulos e meio a contragosto, tiveram que se render ao talento do garoto.
Aos 12 anos, ele foi eleito o melhor jogador de um torneio em Brunete, povoação próximo a Madrid. A competição teve transmissão televisiva e foi vista por observadores técnicos do Barcelona, que foram rápidos e, após negociarem com os pais do jovem, o levaram para La Masia. O início, porém, não foi dos mais fáceis.
Muito apegado à família, Iniesta sofria com a saudade que sentia dos parentes, e a timidez que o acompanha até hoje dificultava a socialização no alojamento. Ele visitava os pais em alguns finais de semana e, ao voltar, chorava sozinho no quarto. Foi necessário um suporte psicológico especial para que o problema fosse superado, além da ajuda de jogadores maiores como Victor Valdés – ambos são grandes amigos – e Luiz Enrique, profissional que o “adotou”, e do técnico Lorenzo Serra Ferrer, que o levava ao cinema quando ele não podia visitar os pais
Dentro de campo, porém, ele sempre se sentiu à vontade e logo mostrou serviço. Jogando como segundo volante, vestia a camisa 4 que pertencia, nos profissionais, ao então ídolo Pep Guardiola e já mostrava o estilo de jogo simples, eficiente e dinâmico que o consagrou. Rápido e habilidoso, era o responsável por conduzir o time ao ataque, função que realizava com eficiência e, na medida do possível, discrição, sem jogadas extravagantes ou firulas.
A titularidade nas seleções espanholas de base também veio com naturalidade. Iniesta conquistou o Campeonato Europeu Sub-16, em 2001 e, no ano seguinte, o Europeu Sub-19, além do vice-campeonato mundial sub-20 em 2003. Junto com ele, estavam nomes como Fernando Torres, José Antonio Reyes, Sergio Garcia e o falecido Dani Jarque, a quem o camisa 6 homenageou na comemoração do gol do título mundial.
O anti-galáctico
Iniesta está longe de parecer uma estrela da bola. Baixinho, exibe uma calvície em estado avançado já aos 26 anos segue demonstrando a timidez incomum que quase o fez desistir. Não usa brincos ou roupas espalhafatosas e dificilmente é visto em badalações. Dentro de campo, dificilmente produz alguma jogada mirabolante, preferindo sempre o drible objetivo, o passe decisivo, a finalização. Em função dessa discrição, ele recebeu o apelido de “anti-galáctico”, em referência ao perfil contrastante com o das estrelas que atuavam pelo Real Madrid, como David Beckham, Ronaldo ou Zinedine Zidane.
A estreia dele nos profissionais do Barça foi em 2002, contra o Club Brugge pela Liga dos Campeões. Naquela temporada, Iniesta ainda atuaria em mais oito partidas, causando boa impressão, mas ainda sem se firmar no time titular. Em 2003/04, ele ganhou um pouco mais de espaço, atuando em 17 partidas, e na temporada seguinte veio a afirmação definitiva, com 46 jogos e dois gols.
Naquela ocasião, Iniesta era o 12º jogador da equipe e já mostrava a versatilidade que o caracteriza atualmente. Reserva no time de Frank Rijkaard, ele poderia entrar no lugar de Xavi, Deco, Giuly ou mesmo Ronaldinho em qualquer eventualidade. Ele já demonstrava muito talento, mas não havia espaço na equipe, e a situação pioraria com a ascensão meteórica de Lionel Messi, que tomou a posição de Giuly ainda com 18 anos, em 2005.
Em 2005/06, porém, com a lesão de Xavi, a chance apareceu, e Iniesta aproveitou a oportunidade para se firmar como segundo homem de meio-campo e ajudar na conquista do Campeonato Espanhol e da Liga dos Campeões. O bom desempenho na temporada garantiu-lhe uma vaga na Copa do Mundo, onde ele teve participação apenas discreta.
Nas duas temporadas seguintes, os blaugranas perderam o título nacional para o Real Madrid, o que ocasionou uma pequena reformulação do elenco. Saíram do clube jogadores como Ronaldinho e Deco, além do técnico Frank Rijkaard, que foi substituído por Pep Guardiola. O espaço aberto pelas saídas dos medalhões somados à excelente performance de Iniesta na conquista da Euro 2008 abriram-lhe as portas da titularidade definitiva, e ele agarrou a oportunidade com unhas e dentes.
No triplete histórico do Barça em 2008/09, Iniesta foi titular absoluto, ora compondo o meio-campo com Xavi e mais um volante – Yaya Touré ou Busquets -, ora jogando como atacante pela esquerda no lugar de Henry, e sempre com muita regularidade. Rápido, habilidoso e dinâmico, ajudava a manter o excepcional volume de jogo do time e foi fundamental na conquista da Liga dos Campeões, marcando no último minuto o gol do empate por 1 a 1 contra o Chelsea que classificou o clube para a final.
Em 2009/10, porém, Iniesta sofreu com algumas lesões e atuou menos. Chegou a estar ameaçado de não disputar a Copa do Mundo, mas conseguiu se recuperar. O gol do título é uma recompensa mais do que justa para quem soube esperar sua hora e sempre aproveitou as oportunidades que teve mantendo os pés no chão e a tranquilidade. E fica a impressão de que mais alegrias virão nos próximos anos.
Ficha técnica
Nome completo: Andrés Iniesta Luján
Local de nascimento: Fuentealbilla, Espanha
Data de nascimento: 11/05/1984
Clubes que defendeu: Albacete e Barcelona
Seleções de base que defendeu: Espanha sub-15, sub-16, sub-17, sub-19, sub-20 e sub-21