Educar não é brincadeira, mas pode e deve ser feito por meio dela. Brincando podemos transformar o mundo, podemos aprender a viver e a conviver. Podemos aumentar nossa auto-estima, confiar no grupo e em nós mesmos. Brincando, aprendemos a superar desafios e a resolver problemas. Educar é muito mais do que brincar é acreditar no potencial de todo e qualquer ser humano e fazer o possível e, às vezes, até o aparentemente impossível, para contribuir com o seu desenvolvimento.
Infelizmente, muitas pessoas que trabalham na área de educação são meros professores e não educadores. A diferença está em exatamente fazer a diferença. O educador vai além da sala de aula, é aquela pessoa que percebe a gente e que nos impulsiona pra frente, é aquele que nos faz ver além do vidro da janela, que faz a gente perceber o quanto realmente podemos. É quem nos faz acreditar em nós mesmos, é quem vibra junto com cada conquista! Se tivéssemos mais educadores do que meros professores, a educação não seria um problema tão sério quanto ainda é hoje.
Parece que hoje estamos mais preocupados em dar nomes aos comportamentos, que na visão de alguns interfere no processo de aprendizagem, do que de fato trabalhar em função de sanar essas dificuldades. É mais fácil justificar o porquê uma criança não aprende, do que encarar o desafio de conseguir que ela aprenda, mesmo com todas as suas limitações.
Dislexia, TDAH, DPAC, Discalculia, entre outros distúrbios ou transtornos de aprendizagem que temos encontrado por aí, são apenas diagnósticos que apontam um conjunto de comportamentos. Não devemos simplesmente rotular e abrir mão do indivíduo que apresenta algum desses transtornos, ao contrário disso, devemos usá-los a nosso favor. Se já é claro que o indivíduo apresenta certa dificuldade temos que levar isso em consideração e trabalhar para contribuir com o seu desenvolvimento. Limitações e deficiências todos nós temos, o importante é aprender a superar ou ao menos criar estratégias para viver melhor.
Ministro aulas de Educação Física a partir do 2º ano do Ensino Fundamental I, até o 3º ano do Ensino Médio em uma escola particular em São Paulo. Este ano conheci um aluno que já está na escola desde o primeiro ano da Educação Infantil, e, desde então, venho esses anos todos ouvindo falar que o “tal Fulano” é terrível, que tem um comportamento difícil e que é agressivo muitas vezes. Isso já deve ter acontecido com muitos de vocês, essa é uma história clássica que irá se repetir por muitos e muitos anos, se não pararmos para prestar atenção no que nós estamos fazendo com esses seres que, em algum momento de sua vida, passam por nossas mãos.
O aluno durante as primeiras aulas apresentou o seguinte comportamento: todas as vezes que perdia ou não conseguia fazer as atividades, chorava de soluçar, gritava, batia em quem chegasse perto e dizia sempre as seguintes frases: - Porque nunca na minha vida eu consigo nada! Eu nunca consigo ganhar nada, as pessoas nunca me escolhem! As pessoas não gostam de mim! O aluno apresenta crenças de incapacidade, de impossibilidade e de dificuldade. Ao perceber isso, toda vez que ele se punha a chorar, eu chegava perto e dizia: - Você tem que acreditar em você! Você tem que acreditar que é possível, que você é capaz! Esse é o primeiro passo para algo se tornar real e aí, depois, temos também que treinar pra ficar bom no que queremos ser bons! Fui alimentando com crenças de capacidades e possibilidades.
Até que, um belo dia, em uma de nossas aulas na qual desenvolvíamos um projeto onde os alunos participam oferecendo aos amigos sua brincadeira predileta, o aluno em questão, era responsável por oferecer sua brincadeira naquele dia, escolheu uma que chamamos de “Corrida pô”. O mais interessante nesse jogo, na minha opinião, é que não exige apenas habilidade física, claro que se um jogador correr mais rápido ele terá a vantagem de disputar com menos jogadores, mas depende também de sorte, portanto, qualquer pessoa pode ganhar de qualquer pessoa, o menos habilidoso pode ganhar do mais habilidoso, coisa que não acontece na grande maioria dos jogos.
Duas filas, uma em cada extremidade do espaço, uma linha que defina um caminho único. Dado o sinal, os primeiros jogadores de ambas as filas devem correr pela linha até se encontrarem, ao se encontrar eles deverão jogar “joquem pô”. Quem ganha continua no percurso e quem perde vai ao final da linha e um novo jogador desta fila sairá ao encontro do outro jogador, e assim por diante, até que um jogador consiga vencer todas as partidas, chegando no final da linha. Nesse caso, o jogador marca um ponto para sua equipe e muda de fila. Esse aluno sempre quis marcar um ponto, mas normalmente não passava do primeiro jogador, suas crenças de impossibilidade e incapacidade bloqueavam suas chances de vencer.

Mas neste dia algo estava diferente, o menino veio para aula diferente, parecia mais feliz, não estava cabisbaixo como andava muitas vezes. Ele explicou ao grupo como era a brincadeira e aí fomos brincar. Na primeira vez, ele conseguiu chegar ao terceiro jogador e aí perdeu. Isso já era um grande progresso, ele se jogou ao chão como fazia sempre, mas dessa vez não chorou, ao contrário, riu. Eu não deixei passar a oportunidade e vibrei junto com ele, e logo elogiei a postura dele. Na sua segunda chance ele vence de 5 jogadores e chega na reta final, mas perde do sexto e último jogador da linha. Olhei pra ele e disse: Não acredito! Faltou apenas um jogador para você vencer! Olha só onde você conseguiu chegar! Isso é muito bom! O aluno olha pra mim e diz: - Sabe, é que eu estou mais confiante em mim!
Acho que não preciso dizer mais nada, pra mim isso é o suficiente, e isso não durou apenas essa aula, ainda hoje um mês após esse episódio encontro ele cada vez mais feliz e mais confiante em si. Claro que ainda têm alguns momentos difíceis, em uma aula que chorou por não ter conseguido roubar a bandeira em um jogo de pique-bandeira, mas já administra bem melhor essas situações.
É isso que faz a diferença, é olhar no olho, acreditar, reconhecer e mostrar que o potencial todos temos, mas é preciso querer e acreditar que podemos. Educar é despertar no outro o que há de melhor, é desenvolver suas capacidades ao máximo, e alimentar para uma boa autoestima é fundamental. Olhar para o outro com amor e compaixão e estar disposto de verdade a educar.
Sei o quanto muitas vezes é difícil, mas não podemos desistir. Se nós, educadores, não acreditarmos no ser humano quem irá acreditar?
No final dessa aula o “Fulano” me deu um sorriso e disse: - Posso fazer uma pergunta? Você será minha professora até meu último ano de escola?
É por essas e outras histórias que digo: Tem algo de maior valor do que esse sorriso?
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Poder contribuir para a autoestima de uma criança e,
assim, fazê-la mais feliz = não tem preço!!!